Investigações apontam que uma sucessão de falhas teria provocado a tragédia
SÃO PAULO - Quase dois meses após o acidente entre o Boeing da Gol e o jato Legacy que ocasionou a morte de 154 pessoas no dia 29 de setembro no Mato Grosso, as investigações do apontam para uma sucessão de falhas que teriam provocado a tragédia. Embora ainda não possam ser apontadas conclusões, é possível destacar por meio de um relatório preliminar divulgado em 16 de novembro e de investigações que procedimentos e condutas de pilotos do jato e de controladores de São José dos Campos, de onde o jato partiu, ou do Centro de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo (Cindacta-1),em Brasília teriam contribuído para o acidente.
Na terça-feira, 21, pela primeira vez a Aeronáutica admitiu que "pode ter havido um erro" em uma informação de um controlador de vôo que estava encerrando seu turno de serviço, em Brasília, antes do acidente. Mas, em depoimentos prestados na Polícia Federal (PF) nesta semana, os 13 controladores que trabalhavam no dia da colisão negaram qualquer responsabilidade.
Eles atribuíram o acidente primeiro a um erro dos pilotos do Legacy, que não seguiram o plano de vôo e também a falhas nos equipamentos do Cindacta- 1. Os controladores alegaram que foram induzidos a erro pelo sistema de radar e de comunicação. Uma das queixas é que a indicação na tela do radar muda automaticamente os apontamentos de altitudes das aeronaves.
Relatório preliminar
O relatório preliminar da investigação sobre o acidente divulgado pelo Comando da Aeronáutica confirmou que as aeronaves colidiram porque o Legacy estava na contramão, a 37 mil pés de altitude.
Ao notar a falha, o Cindacta-1 teria tentado entrar em contato com o jato. E os pilotos também teriam tentado falar com o centro de controle até o momento do acidente. Já o relatório final, que deverá apontar os fatores determinantes para a colisão deve ser divulgado em até oito meses.
Treinamento
A Aeronáutica ainda investiga se os pilotos americanos do Legacy, Joseph Lepore e Jan Paul Palladino, estavam bem familiarizados com o jato fabricado pela Embraer e se cumpriram o número de horas necessárias de treinamento para operar o equipamento. Além disso, as investigações também apuram se os controladores estavam adequadamente habilitados para exercerem suas funções.
De acordo com outros operadores ouvidos pelo Estado, o controlador que vigiava o Legacy em Brasília tinha pouca experiência e foi homologado bem depois dos colegas de turma por não ter conseguido ser aprovado em cinco das seis provas práticas a que foi submetido. Os controladores lembram que o profissional responsável pelo monitoramento do Legacy em Brasília pode ter se distraído ou estava ocupado com outras aeronaves e não acompanhou as trocas de altitude do jato. Pode, ainda, ter sido induzido a erro pelos equipamentos, que não consideram confiáveis.
Transponder
O funcionamento do transponder do Legacy - equipamento que emite sinais para os radares em terra e para outras aeronaves - é apontado nas investigações preliminares como um dos fatores determinantes para a colisão. As investigações concluíram que o transponder estava desligado antes do choque e voltou a funcionar dez segundos depois, mas ainda não foi esclarecido se o equipamento falhou ou se foi desligado pelos pilotos e como teria voltado a funcionar.
Com o aparelho inoperante, os controladores não tinham condições de determinar com exatidão a altitude em que o jato voava porque as informações detalhadas do vôo desapareceram da tela dos radares. Além disso, o funcionamento do sistema TCAS - utilizado para evitar colisão durante o vôo - teria sido prejudicado pela falha do transponder e também não teria funcionado na aeronave da Gol.
Caixa-preta
Dados já analisados e divulgados das caixas-pretas do gravador de dados do Boeing da Gol revelou que o piloto aplicou força ao manche nos instantes que antecederam à queda. Mesmo com sérias avarias na estrutura, os sistemas eletrônicos e mecânicos da aeronave não foram afetados pelo choque. Os peritos da Aeronáutica suspeitam que o winglet (aerofólio instalado na ponta da asa) do jato tenha cortado a extremidade da asa esquerda do avião da Gol. Com isso, estruturas metálicas ou mesmo peças arrancadas pelo choque a 1.800 km/h teriam danificado a fuselagem da aeronave, provocando a despressurização e, conseqüentemente, a queda da aeronave.
Silêncio
A análise do cilindro de voz do Boeing já revelou que aparentemente não houve pânico entre os pilotos na hora do choque. Durante alguns segundos, o rádio ficou em silêncio. Em seguida o que se ouviu foi um forte ruído. Os peritos ainda não descartam a possibilidade de esse barulho ter encoberto diálogos na cabine do Boeing. Para tentar esclarecer essa dúvida, os técnicos da Aeronáutica deverão utilizar filtros eletrônicos na tentativa de remover os ruídos. Só após esse procedimento será possível afirmar se houve ou não uma conversa após a colisão.
Torre de Controle
Outro fator que também pode ter contribuído para provocar a tragédia é um diálogo impreciso entre a torre de controle de São José dos Campos, local de onde partiu o jato, e os pilotos do Legacy.
Ao autorizar a decolagem, o controlador usou o código "N600XL (prefixo do jato). Clear, 370, Manaus.", que indica vôo a 37 mil pés. Faltou dizer no fim da frase, "as filed" ou "according to flight plan", o que quer dizer que as informações do plano de vôo - que dizia que, ao chegar a Brasília, os pilotos deveriam ter baixado a altitude dos 37 mil para os 36 mil pés - deveriam ser seguidas. O piloto americano pode ter se confundido e entendido que poderia voar a 37 mil pés até Manaus.
De acordo com o ministro da Defesa, Waldir Pires, o controlador daquele de São José dos Campos usou uma "linguagem inadequada" ao orientar o piloto norte-americano "a continuar a viagem até Manaus". Ainda está sendo investigado pela Polícia Federal, que ouve os controladores nesta semana, se o diálogo pode ter induzido os pilotos a erro.
Plano de Vôo
Com a possibilidade de ter ocorrido esse mal-entendido na decolagem em São José dos Campos, os pilotos não teriam verificado se a ordem do controlador condizia com as informações do plano de vôo que previa três altitudes: 37 mil pés até Brasília; 36 mil pés entre a capital federal e o ponto Teres (ponto virtual da carta aeronáutica) e, a partir daí, 38 mil pés até Manaus.
Mesmo assim, ao se aproximarem de Brasília, Lepore e Paladino perceberam que se mantivessem os 37 mil pés entrariam na "contramão" da aerovia. Uma hora antes da colisão, eles tentaram fazer contato com o centro de controle de Brasília, o Cindacta 1, que perdeu a comunicação via rádio com os pilotos minutos antes do acidente. A falha do transponder fez com que os controladores do Cindacta não pudessem determinar com exatidão a altitude do jato.
A confirmação de que a aeronave contrariou seu plano de vôo e se manteve a 37 mil pés da decolagem, em São José dos Campos, até o momento da colisão com o Boeing, foi feita a partir da leitura da caixa-preta do jato Legacy.
Falha de comunicação em Brasília
O comandante da Aeronáutica, brigadeiro Luiz Carlos Bueno admitiu, em mais de oito horas de depoimento, em 21 de novembro, que um controlador de Brasília que deixava o turno no dia do acidente passou "uma informação falsa que pensava ser verdadeira", pois disse que o Legacy estava no nível 360, quando, na verdade, depois se verificou que estava no nível 370. O afirmou também que os controladores não estavam trabalhando acima do permitido e informou que o controlador que estava monitorando o Legacy, na hora do acidente, estava observando cinco aviões.
A informação equivocada e a falha do transponder que impediu aos controladores identificarem com exatidão a altitude do jato podem ter contribuído para que a comunicação com os pilotos americanos tenha demorado a acontecer. Quando notaram que o jato estava na contramão, os controladores tentaram entrar em contato por sete vezes com o jato, que tentou falar com o centro de controle por 13 vezes.
As investigações ainda apuram porque depois das tentativas os controladores ficaram 20 minutos sem fazer um novo contato com os pilotos que quando finalmente ouviram o chamado do Cindacta-1 pediram para que a mensagem fosse repetida, o que não ocorreu. A empresa americana ExcelAire, proprietária do jato, porém, defendeu os pilotos e acusou o controlador de vôo que autorizou a decolagem em São José dos Campos em um comunicado à imprensa em 7 de novembro. A empresa afirma que de "acordo com as normas internacionais de aviação, as diretrizes passadas pela torre de controle se sobrepõem ao plano de vôo escrito."
Problemas nos equipamentos e pontos cegos
As falhas e dificuldades na comunicação teriam ocorrido por falhas nos equipamentos do Cindacta-1, não só nos rádios de freqüência, como nos próprios radares, de acordo com os controladores. Durante os depoimentos, os controladores foram unânimes e asseguram que há pontos cegos no controle aéreo na região onde ocorreu o acidente. A Aeronáutica nega a existência de pontos cegos no espaço aéreo.
O controlador que monitorava o Legacy ao passar por Brasília foi ouvido na quarta-feira. Segundo os advogados, ele viu na tela do radar que o jato estaria a 36 mil pés, quando, na verdade, estava a 37 mil pés. O profissional, então, teria repassado uma informação errada a seu substituto.
Os profissionais disseram que, naquele dia, não só a indicação da altitude do Legacy - referente ao plano de vôo - modificou-se automaticamente como a indicação da esquerda - referente à real atitude da aeronave - foi alterada sem a interferência manual do operador. Eles afirmaram que panes desse tipo são freqüentes e que todos os problemas ocorridos no dia-a-dia do centro de controle ficam registrados em livros e computadores.
Os advogados informaram ainda que, naquele dia, 29 de setembro, o centro de Brasília (Cindacta-1) ficou sem contato com duas aeronaves - uma da espanhola Iberia e outra da TAM - que faziam trajetos próximos do percorrido pelo Legacy. Na época da tragédia, o governo garantiu que a comunicação do Cindacta-1 com outros aviões no dia do acidente tinha sido normal, com exceção do jato pilotado pelos americanos.
Os controladores que estavam de plantão na torre de Manaus, de onde partiu o Boeing da Gol e por último os pilotos americanos do Legacy, também serão ouvidos pela PF, mas ainda não há data definida. Com as análises e depoimentos, a PF espera identificar os responsáveis pelo acidente, que devem ser denunciados à Justiça por crime culposo (sem intenção). O inquérito deverá ser concluído até o dia 15 de dezembro.
Fonte: http://www.estadao.com.br/ultimas/cidades/noticias/2006/nov/24/123.htm